Relato de Daniel Pádua sobre Empresa Brasil de Comunicação, Blog do Planalto e o mal que nos consome dia após dia chamado Jornalismo.
1) INTRODUÇÃO
Eu estou doente. Neste momento estou sendo atendido em internação no Hospital SARAH, um hospital público como não há no país, comparado a grandes centros de excelência médica de países "desenvolvidos". No último ano tive diagnosticado e extraído um tumor benigno da tíbia direita. Agora, aparentes lesões ósseas no tronco do corpo, que não sabemos exatamente de qual origem.
Estou bem, sendo tratado numa instituição séria e atenciosa, por uma equipe igualmente maravilhosa e com certeza passarei por esta enfermidade para continuar a expandir minhas andanças. Não há dúvidas, pois já comecei a melhorar. Minha família está aqui, meus amigos estão comigo e estou trabalhando com o Ministério da Cultura novamente - ajudando a consolidar e disseminar as ações que ajudei a construir quando vim para Brasília em 2004. Em outras palavras, a mente e o coração estão fortes e caminhando firmes para atravessar esta tempestade.
Entretanto, há rancor pulsando no meu peito. Um sentimento desprezível, fruto de praticamente um ano e meio de frustração, indignação e sentimento de impotência, cultivados em experiências de trabalho no âmbito do jornalismo público e estatal, mais especificamente na EBC - Empresa Brasil de Comunicação e o Blog do Planalto, da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. As barbaridades que presenciei e vivenciei nesses lugares mexeram comigo, ainda me ofendem - principalmente como cidadão - e decidi, após passar por um período de recuperação sensível desde que pedi demissão em agosto do insólito Blog do Planalto, escrever um relato-desabafo, como sempre fiz neste blog - para mim, pra facilitar o meu próprio entendimento destes fatos num contexto mais amplo - e assim me permitir ficar em paz, com lições aprendidas. Lições que sirvam para ir além da mediocridade/covardia dos que se calaram quando não deviam ou foram condenados ao silêncio.
Evitarei citar nomes e falarei de forma tópica, pontuando com comentários quando julgar necessário.
2) DEIXANDO O "CONTO DE FADAS" PARA O "MUNDO REAL"
30/11/2009
20/11/2009
Semeando a descoberta num provável deserto

Ênnio Candotti* é apaixonado pela ciência, pela divulgação dela, apaixonado pelo Brasil e um mestre na colaboração com outras grandes pessoas que além de preocupadas com os destinos da humanidade fazem algo concretamente, sem medo de errar. Sua experiência recente na Amazônia ainda dará o que falar, é necessário apoiá-lo, como for possível.
1 - Da sua trajetória relativamente conhecida na divulgação da ciência no Brasil que momentos ou eventos você considera mais importantes para serem conhecidos?
Prof. Ênnio Candotti - Os seguintes:
a) Nos anos 1977 a 81 - Na Regional da Sociede Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC do Rio de Janeiro (eu era secretário Regional) começamos a pensar a criação da Ciência Hoje (publicada em 1982) e de conferências semanais de divulgação científica (Ciência às 6 ½) e programas de TV (na TV Educativa: o programa Nossa Ciência surgiria em 1980). A realização da Reunião anual da SBPC no Rio em 1980 foi um evento importante para consolidar as iniciativas que até então vinham sendo tomadas por um grupo ligado à Regional da SBPC (Roberto Lent, Jose Monserrat, Alberto Passos Guimarães, Alzira Abreu, Gilberto e Otavio Velho, Reinaldo Guimarães, Maria Elisa da Costa Magalhães). Ao mesmo tempo em que se progredia na divulgação cientifica iniciavam-se as batalhas para a implantação da Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio de Janeiro (criada em uma primeira versão em 1980 durante a Reunião Anual da SBPC).
b) A criação em 1982 da Ciência Hoje e em 1986 a Ciência Hoje das Crianças
c) O programa de conferências de divulgação “ciência às 6 ½” realizado nas regionais da SBPC em todo o Brasil entre 1985 e 1989 (eu era vice presidente da SBPC) que serviu para promover a Ciência Hoje e a Ciência Hoje das Crianças.
d) A inclusão na Constituição de 1988 de um parágrafo que permitia vincular recursos para as Fundações de Apoio à Pesquisa e com isso criar instrumentos estaduais de apoio a iniciativas de divulgação cientifica. Apenas agora em 2009 as FAPS lançam grande edital de apoio a museus e centros de ciências. Levou 18 anos! Se não promovermos a divulgação cientifica a educação em ciências e cultura, a sociedade dificilmente participará, com gosto e com sugestões de receitas, do almoço que é oferecido no bandejão da c&t.
e) A Semana de Ciência e Tecnologia é outro marco. Começou modesta em 2003 e hoje mobiliza milhões de pessoas, curiosos, crianças e políticos.
f) A próxima etapa a meu ver será marcada pela criação de instituições (com recursos das Fundações de Amparo à Pesquisa - FAPs, Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT e Ministério da Educação - MEC) que promovam uma nova relação entre a ciência a cultura e a natureza. Que propiciem um novo olhar sobre as formigas, os macacos e as plantas. Como eu vejo a formiga, como a formiga me vê?
g) Criar Centros de Ciências ou Museus de tipo 2.0 que permitam educar e oferecer educação continuada (e crítica) para jovens e adultos.
h) Em Manaus estamos criando um destes Museus vivos modelo 2.0.....onde só os postes ficam parados e são proibidos os alfinetes
2 - Quais os principais desafios em fazer ciência - no seu sentido amplo - na Amazônia?
Prof. Ênnio Candotti - Desafios na Amazônia? Se pensarmos em “explorar/defender sem destruir” cada 100 km2 de floresta com um engenheiro ou profissional com formação superior e dez com formação técnica de nível médio, verificamos que precisaremos de pelo menos 300 mil técnicos e 30.000 engenheiros (ou similar) Um numero muito superior ao que existe ou esta sendo formado hoje. Portanto a formação de gente é a prioridade máxima.
Por outro lado, qualquer programa de desenvolvimento em C&T descentralizado esbarra com problemas de infraestrutura: saneamento, transporte e comunicações. Falta uma rede de transporte rápido (poderíamos explorar a hidroaviação). Como oferecer assistência médico-hospitalar, etc. se o posto mais próximo fica a quatro dias de barco?
Outra questão é que a floresta por ser desconhecida é vista por grande parte da população como inimiga. Amigo é o asfalto, o cimento, etc.
E mais, quando a floresta tem valor é porque seqüestra CO2! Oras... As árvores, ecossistemas e gentes que habitam a floresta valem muito mais que um seqüestro de CO2, e valeriam mesmo se descobríssemos que o saldo de seqüestro é negativo!
Atribuir o justo valor científico, cultural, etc. à floresta é o maior desafio da Amazônia e na Amazônia, uma vez que dificilmente isso poderá ser feito por Brasília ou SP.
3 - Fale dos seus projetos atuais.
Prof. Ênnio Candotti - Projeto atual: Construir o Museu da Amazônia - MUSA: Museu vivo em que encontramos lado a lado oficinas de trabalhos práticos para aprender a cultivar hortaliças comestíveis, mas não convencionais e estações de observação equipadas para ver um formigueiro por dentro (se temos tecnologias para ver o intestino delgado por dentro por que não usá-las para ver o que acontece dentro de um formigueiro?)
4 - Que pessoas têm contribuído com a formação e divulgação da ciência brasileira nos últimos tempos?
Prof. Ênnio Candotti - O campeão é o Ildeu de Castro Moreira, mas a ele podem se agregar dezenas de nomes. Em 1980 cabíamos todos em uma Kombi, hoje não cabem em um navio.
Cuidado porem, a divulgação cientifica ainda é, em boa parte, propaganda do “valor de troca” da ciência, um valor de mercado que sofre todas as crises (e manipulações) dos nossos tempos. Uma ciência a serviço do poder.
O valor de uso da ciência, um valor cultural que cada sociedade determina em sua historia e com suas lutas por justiça e democracia, este está muito pouco presente em nossas discussões.
No caso da C&T na Amazônia devemos sim agregar valor aos produtos naturais, mas a meu ver devemos agregar “valor de uso” histórico e cultural e não “valor de troca” típico dos mercados da economia.
4 - Seus futuros projetos.
Prof. Ênnio Candotti - Agregar “valor de uso” aos produtos do conhecimento.
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*Ennio Candotti é físico e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. Presidiu por quatro vezes a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC. Ao longo dos anos, dedicou-se aos estudos das simetrias e leis de conservação em física teórica, divulgação científica, epistemologia, educação em ciências, museus e meio ambiente.
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